domingo, 4 de novembro de 2007

Ginastica na Escola


Para falar da Ginástica Olímpica nas escolas brasileiras, precisamos voltar um pouco no tempo e lembrar a história deste esporte tão completo, até chegar aos dias atuais e ao que acontece com a sua prática no nosso país.

A palavra Ginástica já foi sinônimo de Educação Física. Isso remonta ao final do século XIX, quando aconteceram as primeiras tentativas efetivas de regulamentação da Educação Física ou Ginástica, como era chamada na época, nas escolas brasileiras.

Naquela época havia dois tipos de ginástica praticadas nas escolas, a Ginástica de Quarto, que era executada dentro das salas de aula por entre as carteiras estudantis, e a Ginástica Alemã, mais voltada para a melhoria do condicionamento físico dos alunos, do sexo masculino, com o uso de exercícios que exigiam, entre outras coisas, muita disciplina.
Como a Ginástica Alemã tinha um viés militar e autoritário não foi bem aceita, vindo a ser substituída por uma nova modalidade chamada de Ginástica Sueca, esta parecia ser mais adequado à realidade da escola, pois objetivava apenas desenvolver nas crianças o vigor físico necessário ao equilíbrio da vida, a preservação da pátria e da saúde.
Em 1951 este esporte foi oficialmente introduzido no Brasil como Ginástica Olímpica, devido à sua filiação à Confederação Brasileira de Desporto (atual COB – Comitê Olímpico Brasileiro) e a filiação do Brasil a FIG – Federação Internacional de Ginástica, neste mesmo ano aconteceu o primeiro Campeonato Brasileiro de Ginástica Olímpica, realizado no estado de São Paulo.
Desde Ilona Peuker, treinadora húngara, responsável pela introdução e propagação a ginástica moderna, hoje denominada G.R.D. (Ginástica Rítmica Desportiva), até Adriana Alves, a primeira treinadora de Daiane dos Santos, o envolvimento dos diversos profissionais que acreditaram na Ginástica Olímpica teve importante contribuição, para que os atletas brasileiros atingissem os níveis de rendimento atuais.
Porém a realidade da ginástica nas escolas do Brasil parece ser um pouco diferente, onde sua prática é quase inexistente, seja por falta de equipamentos, espaço ou mesmo professores qualificados. Nota-se que a maior parte dos atletas de alto rendimento pratica o esporte em clubes bem equipados e com o apoio de professores bem preparados.
Segundo a Professora Dra. Marilia Velardi, especialista na formação de Profissionais de Educação Física com a matéria Ginástica, “o que torna difícil a um professor inexperiente ou que não tenha refletido em sua formação sobre o esporte na escola, lançar mão do ensino das ginásticas na escola é o padrão estabelecido pela modalidade, além de ser um esporte considerado difícil de ser praticado, de pouca acessibilidade e de alto custo, devido à necessidade de aparelhos”. Acredita ainda que projetos como o “Crescendo com Ginástica” criado na década de 90 na Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (FEF-Unicamp), pelas professoras Vlma Leni-Nista Piccolo e Elizabeth Paoliello Machado de Souza, onde “a idéia das professoras era desmistificar as modalidades ginásticas: artística, rítmica, acrobática, como modalidades difíceis, perigosas e, portanto, inacessíveis a maior parte das pessoas. O brincar, considerado como um direito da criança e uma das básicas necessidades para seu desenvolvimento era o ponto central da proposta desenvolvida nas aulas: brincar de fazer ginástica ou fazer brincando”, podem ser essenciais para começar a mudar esse quadro. Se a ginástica fosse vista desta forma, provavelmente teríamos mais escolas incluindo este esporte em seu currículo, pois é exatamente assim que o futebol é encarado na maior parte das escolas, como uma brincadeira.
Sem contar que a partir desse projeto, “paulatinamente foram sendo desenvolvidas estratégias para uma melhor organização e aproveitamento das aulas, o que redundou na criação de um método de ensino e no desenvolvimento de inúmeras pesquisas com base nos dados coletados”, acrescentou.

Ao ser questionada sobre o que deveria ser feito para que mais crianças pratiquem ginástica nas escolas, “na realidade penso numa prática esportiva democratizada. Penso que todas as crianças deveriam ter acesso às práticas esportivas, não com o objetivo de seleção de atletas, mas com o objetivo da vivência da prática, da descoberta do prazer que o "saber fazer" proporciona. Da descoberta dos componentes culturais da prática da atividade, fazer algo me faz sentir pertencente à cultura que pratica. Professores capacitados e sabedores desse direito, educadores compromissados com as crianças e jovens, capazes de tornar acessível a prática através da adaptação dos recursos, essa seria chave”, finalizou.
Mais um dos frutos do Projeto Crescendo com a Ginástica, foi o Projeto Imagynação idealizado pela Professora Laurita Schiavon, mestre em Estudos da Ginástica pela FEF-UNICAMP e doutoranda da mesma instituição, que resolveu dar continuidade das atividades gímnicas desenvolvidas ali, aplicando-as em escolas. Na entrevista abaixo, ela esclarece melhor o surgimento do Projeto Imagynação.
Rosi - De onde surgiu a idéia do projeto?
Laurita - O projeto Imagynação surgiu em 1996 a partir do "projeto Crescendo com a ginastica"(PCG), desenvolvido na Faculdade de Educação Física da UNICAMP como extensão à comunidade. Depois de formada pensei em levar este projeto para fora da universidade, onde mais crianças fossem atingidas. Então levei como aulas extracurriculares em escolas, que era a forma mais viável e rápida de conseguir estar nas escolas.

Rosi - Quais as principais características do projeto?

Laurita - Visa a iniciação esportiva com duas modalidades: Ginástica Artística e Ginástica Rítmica e com aulas mistas (meninos e meninas).

Rosi - Quais (quantas) as pessoas envolvidas e até que ponto cada uma continua no projeto?
Laurita – Mais de 30 profissionais já passaram pela Imagynação. Eles começam como estudantes/estagiários, acompanhando um professor e quando se formam e sentimos que ele está preparado e se sente seguro, assume uma nova turma de alunos.

Rosi - Quais as dificuldades/barreiras? valores (financeiro)? espaço físico envolvido?
Laurita - Dificuldade é encontrar professores bem capacitados, com carisma e responsáveis. Só trabalho com esse perfil, então tenho um número reduzido de professores. Poderia crescer mais, mas faltam profissionais comprometidos e que tenham esse perfil. As crianças pagam R$50,00 por mês por duas aulas semanais. Espaço pode ser um gramado, uma sala, um pátio, uma quadra, pois o nosso diferencial é que nossos materiais são desmontáveis e podem ser montados a cada aula.

Rosi - Como foram solucionados os problemas?
Laurita - Temos atualmente um número maior de estagiários para capacitarmos do jeito que gostaríamos e os materiais desmontáveis foram desenvolvidos para que a ginástica artística possa estar em qualquer espaço.

Rosi - O projeto ainda esta ativo?
Laurita - Sim. Em Campinas, Itatiba e Rio de Janeiro, onde temos uma parceria com a ex-ginasta Luisa Parente.

Rosi - Qual o público alvo? e quantos alunos o projeto mantêm ou manteve?
Laurita - Crianças de 3 a 12 anos. Já passaram por nós cerca de 1000 crianças

Rosi - Em sua opinião qual a maior dificuldade para a ginástica ser aplicada nas escolas públicas e porque não é tão difundida como outros esportes (futebol, volei) no Brasil?
Laurita - Em minha dissertação de mestrado, pude verificar 3 principais dificuldades: o professor não sabe o conteúdo a ser ensinado, não sabe como ensinar (método) e não tem materiais, mas o maior problema mesmo é a falta de conhecimento, pois quando se tem conhecimento o profissional consegue adaptar materiais. Não é tão difundida por essas dificuldades e porque os órgãos responsáveis não possuem projetos de massificação da modalidade, onde muitas crianças possam ter acesso.

Todo ano é realizada a Copa Imagynação de Ginástica Artística com cerca de 400 crianças. Esse ano será no dia 11/11/07 no Clube Campinero de Regatas e Natação. Para maiores informações entrar em contato pelo e-mail lauritaschi@hotmail.com.
com.

Nenhum comentário:

Postar um comentário